Li este artigo hoje, 13/05/2012, em um dos caderno do Jornal do Commercio - Ano 2 - número 57, da minha cidade, Recife, na seção sexo@cidade, da escritora Flávia de Gusmão, e resolvi compartilhá-lo com você.
São experiências que já passamos ou conhecemos alguém que esteja hoje dentro deste contexto.
SOBRE OS ESTADOS FÍSICOS
Uma das coisas mais tristes recentemente ouvidas por mim foi a constatação feita por uma amiga sobre sua situação romântica. Mais do que feliz - contrastando com as palavras que saíam da sua boca - ela convocou as parceiras mais chegadas para, numa rodada de drinques, atualizar t:odas nós sobre a "evolução da relação". E aqui vai uma nota da redatora: quando uma companheira procura a outra para "falar sobre namoro, casamento ou noivado", assim no um a um, o que ela quer na verdade, não é uma opinião isenta, mas uma platéia que aplauda aquilo que ela tem a dizer. E falo mais ainda: geralmente a situação não é tão boa quanto ela quer fazer crer, daí a necessidade de audiência e, por conseguinte, apoio.
Dito e feito. Ela ajeitou-se toda na cadeira, chupou o canudinho para tomar coragem e anunciou: "Tive uma conversa muito séria com fulano e ele disse acreditar que nossa relação está praticamente sólida".
Quase sufoco com a minha bebida, que de sólida só tinha mesmo alguns pedaços de fruta esmagados no fundo do copo. A razão do semiengasgo pode ser explicada em duas etapas. A primeira delas é que conheço poucas coisas realmente boas em estado pastoso - que é aquele que se localiza entre o líquido (onde supostamente começou sua ligação afetiva) e o sólido (para onde ela se dirige, mas, aparentemente, segundo as palavras do próprio eleito, não chegou ainda). Vitamina de banana é uma delas. Para o meu paladar, só serve exatamente assim, pastosa e não rala, mas sem pedacinhos, uma textura cremosa e rica. Poderia citar ainda umas três ou quatro coisas na mesma categoria, a gastronômica, mas não iria mais adiante. Não é à toa que comida pastosa é aquela recomendada para convalescente e, numa fase posterior, é indício de que algo não nos fez muito bem.
Mas pastoso mesmo era o cara que ela arrumou. Sujeitinho escorregadio como papa de sagu. Um mané. Moleirão, já passando dos 30, mas cultivando com amor um ideal imaturo, vangloriando-se de não ter talento para fazer nada que exigisse pôr-se em movimento. Corria a lenda de que sua mãe despachava o seu pratinho já feito, com o bife cortadinho e o arroz refogado catado de todas as cebolas - porque ele gostava do sabor, mas não gostava de mastigá-la. Não posso confirmar porque não vi, mas tenho testemunhas relativamente confiáveis. E depois a gente pergunta como é que nasce e procria uma legião de homens que gritam lá do sofá: "Filha, faz meu prato aí".
Pra não cair na armadilha de falar besteira - porque como expliquei alguns parágrafos acima a intenção era ter ouvidos e não bocas a martelar regras de ouro - enchi a boca com algo líquido, do tipo que afasta todas as preocupações e anestesia a má vontade para com a burrice alheia. Se me perguntassem, eu diria que o Sr. Purê ainda vai levar mais uns bons dez anos para declarar a relação sólida o suficiente para dar o passo adiante - aliás, uma década foi o tempo que durou a transição do estado líquido para o pastoso, algo nunca antes visto na área física.
Não vou mentir, como taurina, solidez é algo que exerce um incrível fascínio sobre mim. Prefiro mil vezes uma história como a narrada por outra amiga que, ao parar num posto de gasolina e entrar na loja de conveniência para comprar cigarros, teve que aturar um bêbado apaixonado à primeira vista. "Belezura, belezura, olha eu pago o seu combustível. Quer saber, belezura, combustível nada, eu compro é esse posto pra você. Você quer, belezura, quer?", bradava ele com aquela voz pastosa de bêbado. Belezura não quis, obviamente, mas isso sim é que é atitude sólida movida a um estado levemente gasoso provocado pelos vapores do álcool.
Flávia de Gusmão
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